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Leila Lopes: "Não gosto que falem de mim como a bela negra"Confissões: 16.6 - 10h Por: Sofia Rêgo

Eleita Miss Universo, Leila Lopes revela que se preparou para conquistar o título que nem a mãe acreditava ser possível. Tímida, diz que aprendeu a olhar nos olhos. Reservada, emociona-se quando fala do irmão que perdeu aos 17 anos.

- Alguma vez receou perder o título de Miss Universo por, alegadamente, ter entregue documentos de residência falsos?

- Nunca, porque tudo não passou de uma polémica criada por pessoas que não têm nada para fazer. Eu sou angolana e na altura em que ganhei o concurso Miss Angola/Reino Unido residia em Londres. Portanto, estava tudo dentro da legalidade. Depois, a organização falou comigo e disse-me que nada daquilo da falsa documentação era verdade.

- O título corresponde às expectativas?

- Sim, corresponde. Na verdade, preparei-me para ganhar. Estava a deixar de ser a Leila que todo o Mundo conhecia e que não acreditavam que pudesse vir a ser Miss Universo. Várias vezes ouvi as pessoas dizerem: "Ela é bonita, mas é muito tímida. Ela não consegue falar, não consegue abrir--se, não se consegue mostrar". Então, eu lutei para mostrar às pessoas que era capaz.

- Está orgulhosa de si?

- Muito [emocionada]. Até o presidente [José Eduardo dos Santos] me mandou uma mensagem a dizer que o país se orgulhava de mim, uma mensagem honrosa.

- É verdade que foi vítima de racismo?

- Acho que foi mais de ignorância. Havia pessoas que diziam que eu sou bonita, mas não para ganhar um Miss Universo. "Ela é bonita para África", diziam. Será que eu não posso ser enquadrada num nível de beleza mundial?! Acho que isso é ignorância.

- Foi a primeira vez que sentiu essa discriminação?

- Foi, talvez por ter sido o centro das atenções. Eu não gosto que as pessoas falem de mim como a bela negra, basta a bela mulher.

- A Leila estudava Gestão e sonhava ser Miss Angola?

- É verdade. Sonhava. Melhor do que isso só Miss Universo [risos]. Lembro-me que em 1998 assisti ao Miss Angola com a minha mãe e perguntei-lhe o que é que a miss ia fazer com o título. Ela disse-me que ia trabalhar com crianças, ajudá-las e que depois ia para um concurso onde há outras mulheres. Mulheres com belezas diferentes mas com um só objectivo: ganhar o Miss Universo e poder representar o seu país no Mundo inteiro. Então, esse passou a ser também o meu objectivo.

- Achava-se bonita?

- Bonita no meu todo. A beleza é relativa. Eu tenho valores que adquiri dos meus pais, dos meus familiares. O que vale a pena para mim é isso. É isso que faz com que as pessoas gostem de mim. A beleza física vai-se com o tempo. E se os meus amigos gostam de mim, certamente não é pelos meus belos olhos.

- E que valores foram esses?

- A minha mãe, com quem cresci, transmitiu-me o respeito pelos outros. Não importa quem, não importa se essa pessoa está a limpar a rua.

- Mas isso é ser-se educado!

- É verdade. E eu gosto que me cumprimentem. E gosto de fazer aos outros o que gosto que me façam.

- Fale-me da sua infância...

- Foi uma infância boa. Tinha um irmão que, infelizmente, morreu com cancro [aos 18 anos] quando eu tinha 17 anos. Mas tenho as melhores recordações de quando ia para a escola e dos meus avós.

- Só teve um irmão?

- Até aos nove anos, sim. Depois, a minha mãe teve mais dois filhos e o meu pai também.

- Os seus pais separaram-se?

- Separaram-se e eu tenho irmãos de pai e de mãe, mas dos dois só tinha aquele.

- Sentiu a morte do seu irmão como uma injustiça?

- Pois foi. Uma injustiça. A vida, a natureza... Eu fiquei até aborrecida com Deus. Foi muito triste para mim ver um jovem daquela idade, naquela fase da vida, a lutar contra um cancro no fígado. Fez-me até desistir de um sonho: ser médica.

- Mas queria ser médica quando se impressiona com sangue?

- Também consegui ser miss apesar de ter vergonha de falar com o público.

- É tímida?

- É verdade. Mas ultrapassei, como conseguiria ultrapassar o medo do sangue se quisesse mesmo ser médica.

- Mas como é que venceu a timidez?

- Com vontade. Queria mudar e disse à minha mãe que queria concorrer, mas ela só acreditou quando viu o meu rosto num panfleto publicitário, porque eu era tímida. E muitas pessoas até me avisaram que não iam torcer por mim, porque achavam que eu ia perder devido à minha timidez. Mas não foi assim. E eu sabia muito bem as vantagens que teria se ganhasse. Tímida vou ser para sempre, apesar de ter melhorado bastante. Já olho nos olhos das pessoas…

- E aprendeu como?

- Confesso que tive de ter aulas de ‘public speaking’, porque quando ganhei o Miss Angola tinha ‘brancas’ quando olhava para as pessoas.

- Quer dizer que traça objectivos e luta por eles?

- Não sou dispersa. Acho que tem de ser uma coisa de cada vez e depois luto. Quero criar uma fundação e terminar o curso de Gestão.

- É católica?

- Sou, mas pus em causa a minha fé quando o meu irmão adoeceu. Lembro-me de que quando a minha mãe soube, ela nem me contou. Eu soube ouvindo a minha mãe a falar com uma prima, que a aconselhava a contar-me.

- Mas depois de ele morrer foi a Deus que recorreu?

- Foi. E o meu irmão sempre me incentivou a concorrer e quando resolvi fazê-lo, em todos os momentos pensava nele. E hoje, quando vejo a minha vitória, acho que ele anda por aí a olhar por mim.

- Um resultado que vai ficar na História...

- É uma responsabilidade. E eu aconselho todas as pessoas que queiram concorrer a prepararem-se para a pressão que o público exerce sobre nós. É muito grande. O público cobra-nos, está à espera que eu esteja sempre assim, que acorde assim. Mas eu não sou assim. Essa pressão chega a pesar. Também já começo a cobrar-me, porque não quero que digam coisas que não fiz. O público chega a ser…

- Cruel?

- Sim. Faço tudo para agradar, tento fazê-lo, mas o preço da fama…

- O público acha que uma miss é um cabide? Esquecem-se da pessoa?

- Acho que é isso. Que a Miss Universo é intocável, uma bonequinha, que só serve para tirar fotos, falar bonito, que não erra. Mas eu digo que a Miss Universo é uma mulher normal. Eu ando de chinelas, ando sem maquilhagem. E não vou mudar assim por ninguém.

- A Leila tinha um projecto social.

- Em Angola, antes de concorrer a miss já colaborava com organizações. Trabalhava com crianças desfavorecidas. E ganhei o Miss Universo, concurso que luta contra o VIH, o que de certa forma é bom para mim, pois África é o continente mais afectado.

- E porquê ajudar crianças?

- Eu gosto de crianças. Lembro-me perfeitamente da minha infância. Não fui uma criança rica mas tive amor, fui muito feliz, andava sempre rodeada de primos, e isso foi muito importante. E em Angola há muitos órfãos. Não importa a riqueza de uma família, para mim o mais importante é a união que existe no seio familiar. Gostava de poder dar-lhes essa segurança e por isso é que quero criar uma fundação que ajude crianças e idosos. Há muitos idosos que são abandonados pela família.

- Para quando essa fundação?

- Vou terminar o meu reinado e já tenho pensado em parcerias com instituições americanas e africanas. Pretendo fazer algo grande em Angola, será um projecto que leva tempo mas vou registá-lo ainda enquanto sou Miss Universo.

- Vai voltar a estudar?

- Vou. Vou voltar à vida normal.

- A infância passou-a em Benguela.

- O bairro em que eu nasci e fui criada é de nível baixo. Eu tinha vizinhos que viviam em casas de zinco, onde chovia. Acho que isso contribuiu bastante para a minha formação. Na altura da guerra a minha província foi afectada e eu ouvia tiros. Ia para a escola quando as aulas voltavam ao normal e tinha colegas que tinham perdido os pais em ataques.

- Foi a violência que a obrigou a fazer-se adulta antes de tempo?

- Acho que sim. E como tive irmãos muito mais novos, ajudei a minha mãe a criá-los e tornei-me mulher mais cedo.

- Diz que é muito observadora?!

- Eu gosto da vida, gosto de ver, de acompanhar o dia-a-dia das pessoas. Às vezes saio para a rua só para isso. E num segundo tiro as minhas conclusões.

- Tem hobbies?

- Internet, o Skype para conversar com a família. E gosto de ouvir música e de ler.

- E como é que supera as saudades da família?

- Por mais que tenha vivido distante – estive quatro anos em Inglaterra –, podia ir lá sempre que quisesse. E agora não posso. A minha irmã fez 18 anos e queria tanto estar lá mas não pude. Esses momentos que perco deixam-se triste.

- E namorar?

- Estou sem namorado. Graças a Deus. Agora não dá. Os rapazes já não querem namorar à antiga, telefone, cartas, Skype.

- É teimosa?

- Gosto de provar o meu ponto de vista e acabo por parecer teimosa. Ponho na cabeça que estou certa. As pessoas querem fazer-me chegar à razão e eu já pus na cabeça que estou certa. É um defeito que estou a trabalhar. Mas muitas das vezes acabo por ter razão.

- E emociona-se com facilidade?

- Sim, mas não sou de me expor. As pessoas estão sempre a dizer-me: "Leila ganhaste o Miss Angola e foste a primeira que não vimos chorar e ganhaste o Miss Universo e não choraste". Não preciso de chorar, estava e estou feliz, não é preciso verter lágrimas para mostrar que estou feliz. Um sorriso basta. l

INTIMIDADES

- Quem convidaria para um jantar a dois?

- A Oprah [Winfrey]. Admiro-a muito e pelo que já li e ouvi passou por muito na vida, soube dar a volta e hoje reconhece de onde veio e ajuda. Dizem que só constrói escolas em África, mas isso é educar um continente.

- Quem é o homem mais sexy?

- Will Smith. O meu actor preferido.

- O que não suporta no sexo oposto?

- Machismo.

- Qual é o seu maior vício?

- Dormir.

- Qual foi o ultimo livro que leu?

- ‘O Segredo’. Por ser tímida apeguei-me muito a livros de auto-ajuda e ‘O Segredo’ ajudou-me bastante. Não o li todo, sou do tipo de ler o essencial, vou por títulos.

- O filme da sua vida?

- ‘Sete Vidas’, com Will Smith.

- Cidade preferida?

- Luanda.

- Um desejo?

- São tantos… Poder realizar os meus objectivos. Profissionalmente, poder ter a minha fundação.

- Complete. A minha vida é...

- Boa. Não tenho do que me queixar.

PERFIL

Leila Luliana da Costa Vieira Lopes nasceu em Benguela no dia 26 de Fevereiro de 1986. Apreciadora de moda, estudava Gestão em Londres quando, em Dezembro de 2010, concorreu e venceu o Miss Angola 2011. O concurso abriu-lhe as portas para o Miss Universo, que ganhou em Setembro.



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