Boss AC: “Se Jesus Cristo não agradou a todos também não vou ser eu" Êxito:
04.2 - 10h
Por: Miguel Azevedo
O rapper português está de volta aos discos com ‘AC para os Amigos’, um registo que versa sobre os tempos de crise.
- Para os Amigos’ é o título do seu novo disco. Neste momento quem são os amigos do Boss?
- [risos] Há duas formas diferentes de interpretar este título. Em primeiro lugar tem a ver com o meu nome: Boss AC. Quando as pessoas me chamam ‘Boss’, eu digo sempre: "Eu não sou Boss. Sou AC para os amigos." Em segundo lugar, eu gosto sempre de pensar que quem está do outro lado a ouvir a minha música são pessoas que gostam de mim e que, de certa maneira, são como amigos.
- Isso quer dizer que o AC também tem inimigos?
- Há uma coisa que eu aprendi com o tempo: não se pode agradar a todos. Se Jesus Cristo não conseguiu agradar, também não vou ser eu.
- Mas acha que há muita gente que não gosta de si ou da sua música?
- Claro que sim, da mesma forma que eu também não gosto de muita gente.
- Há muitos puristas do hip hop, por exemplo, que continuam a acusá-lo de já não fazer hip hop. Isso é algo que lhe tire o sono?
- Não. Essa conversa é uma pastilha mastigada tantas vezes que já perdeu sabor. Cada vez mais me vejo como um músico e cada vez mais componho sem barreiras. Eu sei que há pessoas que não gostam daquilo que faço, mas essas mesmas pessoas têm de saber respeitar as minhas opções. Para mim, a discussão do que é ou não é hip hop já não faz sentido.
- Mas havia quem lhe chamasse o ‘pai do hip hop’!
- Sim, mas isso são rótulos e eu odeio rótulos. Eu respondo pela minha música, não posso responder por um movimento inteiro. E além do mais, estas críticas que me fazem também são o efeito secundário do sucesso.
- Como assim?
- À medida que nos tornamos mais populares, tornamo-nos também num alvo mais fácil e mais apetecível. Mas a mim, o que me preocupa é a minha consciência e fazer a música que eu gosto. O facto é que eu nunca me sentei a escrever com o propósito de fazer hits e de escrever grandes sucessos. A minha música é a minha visão do hip hop.
- Mas o hip hop mudou?
- Não existe uma definição de hip hop, assim como não existe uma definição restrita do que é rock. Para mim, o hip hop é cada vez mais uma linguagem universal. É assim que eu o vejo.
- Depois do êxito que obteve com ‘Preto no Branco’, qual foi a sua grande preocupação para este novo trabalho?
- Eu nunca coloquei a fasquia muito elevada. Claro que a minha ambição é sempre ir mais longe, mas tenho-o feito de forma muito consciente e realista. Não estou à espera de vender milhões de discos e virar milionário de um dia para o outro.
- Mas sentiu alguma pressão para este novo trabalho?
- Não. Basicamente eu sigo duas máximas: primeiro a de me agradar a mim próprio e, depois, tentar sempre evoluir naquilo que faço. Uma coisa é verdade, goste-se ou não de mim, ninguém encontra, nos meus discos, paralelo naquilo que fiz anteriormente.
- Nestes últimos três anos muito mudou na vida política, social e económica em Portugal. A música e a escrita do Boss AC também mudou por causa disso?
- Não. A minha música não mudou, até porque eu sempre escrevi sobre aquilo que me rodeia. As pessoas só agora acordaram para a crise, mas nós já estamos em crise há muito tempo. Nada disto é novidade.
- O que é que mais o preocupa no actual estado de coisas?
- A falta de certezas. No meu caso preocupa-me esta vida de músico, que um mês corre muito bem e no seguinte já não sabemos como vai acabar. A venda de discos diminui, os cachets diminuem, mas a vida tem de continuar. Não nos podemos resignar. Temos de lutar. Eu, pelo menos, tento ser sempre um cidadão activo. Tento sempre que a minha voz seja ouvida.
- Considera-se, de alguma forma, um músico de intervenção?
- Eu gosto de pensar que tenho alguma coisa para dizer, mas acho que essa coisa do músico de intervenção tem uma carga quase explosiva. Claro que muito do que eu faço, até pela linguagem que utilizo, pode ter essa conotação, mas eu prefiro ver-me como um cidadão activo. Não quero essa responsabilidade de ser um músico de intervenção. Prefiro que seja o tempo a dizer se isso é verdade ou não.
- E acha que a música ainda é uma arma?
- Sim, sem sombra de dúvida. A grande questão é como é que se usa essa arma.
- E como é que o Boss AC a usa?
- Eu uso a minha música como uma arma de paz. Eu não tenho a pretensão de mudar o Mundo com a minha música, mas tento alertar para a consciência das pessoas. Se o conseguir, acho que já terei feito a minha parte em todo este processo.
- O primeiro single deste disco ‘Sexta-feira (Emprego Bom Já)’ é uma crítica ao mercado de trabalho e ao problema do desemprego. Ainda há bons empregos ou já só há trabalho?
- [risos] Não, ainda há aí meninos com muito bons empregos e com ‘tachos’ que não lembram a ninguém. A prova é que, muitas vezes, nestas alturas de crise há quem faça grandes fortunas.
- E se o Boss AC não fosse músico, que emprego acha que teria?
- Quando era miúdo, eu queria ser cientista. Na verdade, nunca quis ser artista nem nada que se parecesse. De qualquer forma, hoje acho que teria sempre uma ligação às artes.