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Diabo na Cruz: “Representamos uma era em que os músicos portugueses acreditam em si próprios” Êxito: 12.5 - 10h Por: Miguel Azevedo

Depois de em 2009 terem lançado um dos discos do ano, ‘Virou’, o grupo regressa aos originais com ‘Roque Popular’.

- Afinal, é ou não verdade que o segundo disco custa mais a fazer do que o primeiro? Sentiram dificuldade acrescida?

Bernardo Barata - Sim. E sentimos uma enorme responsabilidade depois de nos apercebermos de que o primeiro disco teve o impacto que teve. Nós esperávamos que corresse bem, mas não esperávamos que corresse tão bem.

- Qual foi a grande preocupação quando partiram para este novo disco?

B.B. – Foi fazer algo que trouxesse novidade, mas que mantivesse também a identidade do grupo.

- E como é que correu esse processo de renovação?

B.B. – Correu com muita discussão, discussão boa, e muita conversa existencial. Foi muito tempo passado na sala de ensaio a experimentar coisas.

Jorge Cruz – Quando fizemos o primeiro disco estávamos à procura de um som e neste sentimos a obrigação de fazer a síntese desse som de uma forma mais aprofundada.

- Fazer um disco mais rock e com mais percussão fazia parte dessa obrigação?

João Pinheiro – Sim, a preocupação principal foi tentar fazer um disco que interligasse os dois lados que nos movem: o rock e a música popular de raiz portuguesa, que tem muito a ver com essa percussão densa e forte.

- Há dois anos diziam que "em Portugal não era fácil uma banda ser aceite à primeira". Vocês foram-no. E agora?

J.C. – A nossa intenção é sempre testarmo-nos, experimentarmo-nos e levarmos os limites das nossas visões musicais para terrenos menos confortáveis. E sabemos que para as pessoas isso exige tempo de adaptação. Nós sabemos que este disco não tem uma leitura tão imediata, mas merece uma meia dúzia de audições para se perceber o que está por detrás.

- Os Diabo na Cruz sofreram algumas mudanças na formação, como a saída de B Fachada. Até que ponto o projecto se ressentiu dessas entradas e saídas?

B.B. – Ressentiu-se, claro, mas ganhámos outras coisas. A entrada do Manuel Pinheiro, que toca percussão, no início do ano passado, por exemplo, já fazia adivinhar este disco. Depois, com a saída do Fachada e a entrada do Márcio e do Sérgio podemos fazer coisas que não fazíamos tão bem antes. Passámos a ter mais vozes e a espalhar melhor os arranjos. Tornámo-nos mais ricos.

- As letras dos Diabo parecem mais aguçadas, mais críticas e mais protestantes. A palavra assume maior importância neste disco?

J.C. – A palavra foi sempre importante para nós, mas no outro disco talvez a temática não estivesse tão evidente e os significados tão explícitos. A verdade é que depois de tanto tempo a tocar pelo País fora, sentimos uma obrigação de nos virarmos para algo mais colectivo e mais partilhado. Mas vimos de uma linhagem da música popular, em que a língua e a palavra são sempre muito importantes. Aquilo que tentamos fazer é dignificá-las.

- Vocês utilizam muito a palavra ‘fé’ ao longo do disco e em várias canções. É excesso ou falta dela?

B.B. – Eu acho que nós somos um grupo especial no que diz respeito a uma espécie de crença colectiva que é fundamental para a forma de funcionar do grupo.

- Mas que fé é essa?

B.B. – Não é necessariamente uma fé religiosa, mas uma crença na superação e em fazer algo de especial e deixar uma marca. E também acho que representamos uma era em que os músicos portugueses acreditam em si próprios.

- Esta utilização constante de termos como ‘preces’, ‘rezas’, ‘santos’, e chamando-se vocês Diabo na Cruz, nunca foi visto como provocação?

J.P. – A minha avó gosta que eu toque, mas não gosta nada do nome da banda.

J.C. – Sim, as pessoas continuam a reagir com curiosidade ao nosso nome. Portugal sempre foi um País de festas pagãs, misturadas com festas religiosas. Essa contradição sempre esteve presente. Nós só tentamos pôr isso tudo no mesmo boião.

B.B. – Está na nossa história. Apesar de uma certa religiosidade, sempre fomos um povo capaz de contrariar o Vaticano ou o Papa.

- ‘Vai nortada vai/ varre este país/ troca os ventos de brandura/ por algo que abane com isto tudo’. Há alguma descrença vossa em relação ao estado de coisas, em relação à política ou aos políticos?

J.P. – Acho que isso tem a ver com os tais brandos costumes. As pessoas acham que não podem fazer nada para mudar as coisas, quando isso não é bem assim.

J.C. – Em algumas partes deste disco há, de facto, um sentimento de agitação e de vontade de acção que, se calhar, muitos portugueses estão a partilhar nesta altura.

B.B. – A mudança das coisas está mais nas nossas mãos do que pode parecer. Esse verso dá pano para mangas [risos].

- Vocês sentem que de alguma forma estão a fazer nova música de intervenção?

J.C. – O termo música de intervenção não é muito simpático para nós, porque tentamos trabalhar ao mesmo tempo com a música moderna e contemporânea e também com o legado da música portuguesa. O facto é que muitas das coisas que são importantes e referências para nós ficaram muito arredadas do conhecimento público, precisamente por terem sido engavetadas na música de intervenção só associadas a questões políticas.

- Neste disco fazem um agradecimento especial ao Tarzan Taborda. Porquê?

J.C. – Porque o Tarzan Taborda é um campeão que como tantos outros acreditou em si próprio.

- Internacionalizar o projecto faz parte dos vossos planos?

J.C. – Para nós é prioritário definir primeiro o nosso trabalho aqui. E depois também temos a nossa família cá. Somos roqueiros pais de família. Mas sabemos que há muito interesse do Brasil em nós, por exemplo.

Entrevista com Diabo na Cruz



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