Sociedade Recreativa: A voz da sereia Êxito:
18.8 - 10h
Por: Fernando Sobral, jornalista
A voz da sereia andava perdida nos mares. E quem a recorda, algures entre as décadas de 1980 e 1990, lembra que ela era delicada como fino cristal. Elizabeth Fraser, a voz dos Cocteau Twins, simbolizava uma inocência musical etérea aliada a uma estética muito própria da editora 4AD.
No mundo da pop desses dias, os Cocteau Twins eram o lado sonhador daquilo que os Smiths nos ofereciam. Canções que nos embalavam e emocionavam. O som enigmático da banda, onde todos os marinheiros se queriam perder para seguir a voz de sereia de Elizabeth Fraser, tornou-se num refúgio de culto.
A banda dissolveu-se e a vocalista foi aparecendo, aqui ou ali, para mostrar que estava longe mas não se tinha perdido para sempre. Em 15 anos lançou três canções e nunca fez um concerto. Foi, por isso, gratificante ver que voltou, para um raro concerto em Londres, trazendo a esperança de um disco. Algumas delas podem ser escutadas nos vídeos disponíveis no YouTube, mas, pelo que se sabe, não há a garantia de que as novas canções sejam editadas.
Pelo que se entendeu, ela abdicou do universo ambiental dos Cocteau Twins e preferiu rodear a sua voz de um som mais folk, onde nem faltou a presença do antigo guitarrista dos Genesis, Steve Hackett. O momento mais empolgante foi a recuperação de ‘Song to the Siren’, de Tim Buckley, que ela, há três décadas no projecto This Mortal Coil, transformou num hino lírico sem rival.
O intimismo e a delicadeza parecem ser a nova realidade da enigmática Liz Fraser, que nada diz sobre o seu futuro imediato. Apetece agora recuperar todos os seus discos e, sobretudo, guardar a sua voz para sempre. Até porque num momento de cansaço criativo como aquele que vivemos, recuperar a melhor pop ainda é uma missão possível.