Simone de Oliveira: "Houve gente que me fez mal" Nacionais:
26.2 - 11h
Por: Sabrina Hassanali
Simone de Oliveira fala com uma franqueza desarmante, mas garante que é capaz de ser muito contida. Diz que não tem capacidade de odiar e que acredita na reencarnação.
CM - Há quem diga que a palavra que melhor a caracteriza é excesso: de talento, vontade, paixão... Concorda?
Simone de Oliveira - Não, não concordo nada que seja excesso. É um extravasamento da minha alma. Se eu tivesse tido tantos excessos, já tinha dado facadas em tanta gente e isso nem me passa pela cabeça! É verdade que quando gosto, gosto, mas quando não gosto não odeio. Não tenho capacidade de ódio.
- Não houve ninguém que lhe tivesse feito mal e que tivesse odiado momentaneamente?
- Houve gente que me fez mal e, na devida altura, terei ficado irritada, mas não tenho capacidade de odiar nem de vingança.
- A sua franqueza trouxe-lhe inimigos?
- Ela não tem sido tão negativa assim. Inimigos devo ter muitos, mas não estou preocupada com isso, não me afecta. Ai não gostam? Então paciência, gostassem.
- Tudo na sua vida é vivido intensamente?
- A minha vida é vivida com verdade e intensidade, mais à flor da pele.
- É uma pessoa de extremos?
- Nem tanto como as pessoas imaginam... sou capaz de ser muito contida.
- Tem muitos medos?
- Nesta altura da minha vida, não. Tenho medo da fome, que as crianças passem fome.
- E da morte?
- Toda a gente tem medo da morte. Não penso nisso. Mas acredito no para além da vida...
- Na reencarnação?
- Acredito ferozmente, o que leva a que eu tente, todos os dias, ser um pouco mais cordata, mais honesta, um pouco melhor, tento olhar à minha volta e perceber se posso ajudar mais alguém.
- Portanto, não acaba aqui, existe uma continuidade...
- Recuso-me a aceitar que acaba aqui. Acreditei desde sempre e não depois de ter sido a tal das cantigas. Acho que tem de haver qualquer coisa. Há demasiadas evidências para quem acredita.
- A fé é importante?
- Eu tenho fé, mas é muito minha, não sei explicar. Acredito sempre que é possível lá chegar, ser melhor, pedir ajuda, "Ajuda lá, faz uma forcinha!", é assim que eu rezo.
- A crise de valores por que estamos a passar não tem volta ou são ciclos?
- São ciclos. Um dia, por uma razão qualquer estranha - eu nem sei se estarei aqui nessa altura -, as coisas vão melhorar, dar a volta. Não vale a pena estarmos dramaticamente a bater com a cabeça na parede.
"VOU GRAVAR AGORA UM CD COM INÉDITOS"
- ‘Intimidades' foi o seu último álbum?
- Sim, mas vou gravar agora um CD de inéditos. Vamos tentar que seja este ano, porque são 55 anos de carreira.
- Não pensa em parar?
- Nunca, a não ser que a vida não me permita. E se eu não der por isso, há pessoas encarregadas de me dizer: "Ó menina, vamos lá estar quietinha."
- É pontual?
- Sou de uma pontualidade britânica. Fico apoquentada quando as pessoas se atrasam.
- É arrumada?
- Muito. Saio às nove e deixo a casa arrumadinha.
- Gosta de cozinhar?
- Gosto muito.
- Está cansada de elogios?
- Gosto de elogios, mas a certa altura não tenho capacidade de resposta.
"TENHO SIDO UMA MULHER DE SORTE"
- Casou-se cedo, aos 19 anos...
- Sim, depois fui-me embora, mas não falo disso.
- Até porque isso foi um pretexto para...
- Cantar.
- Foi coincidência ou destino?
- Aí está porque eu acredito no destino.
- Com Madalena Iglésias era uma rivalidade mediática ou real?
- Acho que houve ali birrinhas sem importância de duas miúdas com 19 ou 20 anos.
- Teve cancro da mama numa altura em que pouco se falava disso. A sua personalidade ajudou-a a superar esse momento?
- Ajudou muito, mas não foi determinante. O cancro tem vertentes que nós desconhecemos. Eu tenho sido uma mulher de muita sorte sob esse aspecto.
- E quando perdeu a voz?
- Pensei: como vou ganhar dinheiro para dar de comer aos meus filhos?
- Foi pragmática.
- Chorei! Mas depois canso--me de estar mal. Ao fim de alguns dias, não tenho paciência para estar mal e abro uma janela lá em casa. Gosto muito do meu pombal, que é como chamo à minha casa, por ser pequenina.
PERFIL
Uma das figuras mais respeitadas no nosso país, Simone de Oliveira, de 74 anos, estreou-se como cantora no primeiro Festival da Canção Portuguesa e como actriz na revista. Do primeiro casamento, teve dois filhos. Foi casada também com o actor Varela Silva.