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António Sala: "Sou romântico, dou valor ao amor"Nacionais: 13.11 - 10h Por: Sabrina Hassanali

António Sala dá a conhecer o seu percurso pessoal e profissional no seu último livro - o sexto - ‘Memórias da Vida e da Rádio de Afectos' e revela que, hoje em dia, a Rádio é "mais impessoal" do que antigamente.

Correio da Manhã - No seu livro, ‘Memórias da Vida e da Rádio dos Afectos', começa por agradecer a Deus. A fé é fundamental?

António Sala - É, embora não seja continuada ou um padrão estabelecido e nem tenha sempre a mesma medida. Acho que ao longo da vida, a minha fé é um gráfico muito oscilante.

- Ainda há ‘Rádio de Afectos'?

- Não quero ser injusto, mas dá--me a impressão que hoje já nem se fala para o ouvinte, fala-se muito para o umbigo. Hoje há mais informação, mais detalhada, há muito mais objectividade na informação, mas é mais impessoal.

- Pôs um ponto final na sua carreira por não gostar do rumo que a Rádio tomou?

- Não é não gostar. Acho que tudo tem um tempo. Às vezes vou na rua e vejo uma mulher, de trás, com um corpo de liceu e, depois, quando a ultrapasso e vejo que tem cara de museu...

- O seu programa, ‘Despertar', durou 18 anos. A que se deveu este êxito?

- O êxito do ‘Despertar' nunca foi a música. Havia horas em que tocava apenas um disco. Era a comunicação, o diálogo com o ouvinte. Além disso, talvez tenha sido o primeiro a fazer uma emissão em que se fazia um ‘ping-pong' entre Lisboa e Porto, onde estava a Olga Cardoso.

- Além de locutor, foi apresentador, músico e até foi herói de fotonovelas...

- Queria ser actor, era o meu grande sonho, e as fotonovelas eram uma forma de ser actor.

- Tinha muitas fãs?

- Tinha algumas, recebia cartas apaixonadas, era giríssimo.

- A sua mulher tinha ciúmes?

- Não, era auto-confiante. Aliás, era giro porque eu mostrava as cartas à minha mulher, na altura minha namorada. Ela ria-se e mostrava às amigas.

- No seu livro recorda o dia em que começaram a namorar. É um homem romântico?

- Sou muito romântico. Dou muito valor à afectividade, ao amor, às pequenas coisas.

- Tem uma ligação muito forte com o seu filho. Tem a ver com o facto de ter conhecido o seu pai quando era já adulto ?

- Sim, tem a ver com isso. Houve Natais que não vivi com o meu pai e tive pouca proximidade com ele e, por isso, senti sempre essa falta. Quando o conheci foi uma proximidade fantástica.

- O que está a fazer agora?

- Faço tudo o que antes não tinha tempo para fazer. Toco piano, leio, escrevo e, de vez quando, sou convidado a ir a universidades e escolas para falar sobre comunicação ou a fazer work-shops, também sobre isso.

- Lamenta alguma coisa na vida?

- Lamento, mas são demasiado pessoais. Talvez o tempo que não dei a pessoas queridas, algumas que já partiram.

"REJEITEI CONVITES PARA CARGOS POLÍTICOS"

- Foi vice-presidente do Benfica...

- Fiz vários mandatos, embora as pessoas se lembrem mais do último, na direcção de Vale e Azevedo.

- No seu livro diz que ser dirigente desportivo "é um capítulo encerrado". Ficou desiludido?

- Gosto de desporto, gosto muito do Benfica, mas uma coisa é a paixão clubística e outra são os meandros do futebol. Eu era uma figura consensual e, a partir do momento que me expus num clube, passei a ter todos os outros clubes e os seus adeptos contra mim. Não precisava disso.

- E a política nunca o atraiu?

- Fui filiado no PS, mas nunca fui socialista, sou mais social-democrata. Apaixonei-me pelo projecto Sá Carneiro e filiei-me depois no PSD, mas estou desligado do partido há muitos anos. Rejeitei vários convites para cargos políticos. 

"A DOENÇA MUDOU-ME"

- Venceu um tumor na cabeça. A doença mudou-o?

- Mudou, tornou-me mais tolerante, mais dado a entender as pessoas e as coisas .

- Pensou, em algum momento, que ia morrer?

- Não achei que ia morrer. Pensei que podia morrer ou ficar defeituoso para toda a vida, com problemas graves. E aí é que nos faz falta uma estrutura familiar forte e amiga.

- Hoje, a morte assusta-o?

- Talvez não me assuste tanto, mas é coisa com que lidamos mal...

- Foi depois da doença que decidiu tornar-se voluntário do IPO?

- Não, eu já era voluntário do IPO antes de ter o problema.

- O que faz como voluntário ?

- Ando com a minha bata branca por aquelas camas, converso com os doentes e dou-lhes de comer. Há pessoas que vêm de longe e não têm visitas, estão entregues ao seu sofrimento.

- Tem cuidado consigo em termos de saúde e estéticos?

- Não gosto de me ver gordo e, por isso tenho cuidado com a alimentação. Também faço caminhadas, mas não com regularidade. 

PERFIL

António Sala nasceu em Vilar de Andorinho há 62 anos. Aos 10 anos mudou-se para Lisboa e entrou para a Rádio Renascença em 1979, onde alcançou o sucesso com o programa ‘Despertar'. Fundou os ‘Maranata' e escreveu a música de Zé Brasileiro Português de Braga. Também foi apresentador de TV e já escreveu seis livros.



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