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Carlos Lopes: "Se estivesse à espera passava fome"Nacionais: 13.5 - 12h Por: Sofia Rêgo

Carlos Lopes fala com orgulho do seu percurso. Diz que provou que era o melhor mas confessa que ambicionava ser electricista de automóveis.

CM – Ter uma mulher atleta foi uma sorte?

Foi. Ela sabia os sacrifícios que eu tinha de fazer. E quantas vezes não me apetecia fazer as coisas e era ela que me dizia: "Tens de ir, vais ter de fazer."

– A Teresa desistiu do atletismo, mas incentivava-o?

É verdade. Ela desistiu quando teve o terceiro filho.

– Em criança, o Carlos era um rapaz reguila?

Fazia as coisas pela calada.

– E deixou de estudar...

Fiz a quarta classe e depois não quis mais. Os recursos também não eram grandes.

– Nasceu numa família modesta.

Pessoas de trabalho. Os meus pais tiveram uma capacidade extraordinária para criar oito filhos. O meu pai trabalhava numa fábrica de madeira e em calçado. E a minha mãe era doméstica, mas cultivava o que comíamos. Nunca passei fome. Mas sempre fui um fugitivo da agricultura. Saía da escola e ia jogar à bola.

– Ambicionava ser futebolista?

Não. O que eu queria era ser electricista de automóveis, coisa que nunca consegui.

– Porquê?

Porque a minha vida se encaminhou para outro sítio. Quando surgiu a hipótese de ir trabalhar para a fábrica do meu pai, fui para serralheiro. E depois para torneiro mecânico. Fui um bom profissional. E, quando mudei para Lisboa, vim como torneiro e ganhava muito bem, mas por causa do atletismo…

– Já gostava de atletismo?

Bem, no futebol eu era muito franzino e as pessoas nunca olharam para mim como um grande futebolista. O atletismo apareceu e, ao fim de três meses, era atleta do Sporting e era atleta internacional, e isso foi um estímulo.

– Mas arrepende-se de ter deixado de estudar?

Sim. Eu tinha vocação para continuar. Mas era miúdo.

– Gostava de se ter formado em quê?

Em Matemática ou em mecânica de automóveis. Eu era bom a Matemática. Ganhava as corridas a fazer contas de cabeça,a gerir as minhas capacidades e o esforço dos adversários.

– O atletismo deu-lhe dinheiro?

Deu a nível internacional, porque em Portugal nunca tive dinheiro. Mas não me deu o dinheiro que dá hoje. Eu sou extremamente organizado e poupado, porque se estivesse à espera de alguma coisa passava fome.

– Abandonou o atletismo por causa das artroses?

– Sim, nos joelhos. Mas já tinha 40 anos. E sempre disse que há um princípio e um fim para as coisas. Portanto, não me custou nada deixar. 

"SEMPRE FUI UM PAI LIBERAL"

CM – Tem três filhos, dois rapazes e uma rapariga. Algum deles seguiu as pisadas do pai?

Eles trabalham e fazem o desporto que gostam. O mais velho [37 anos] quis atletismo, o do meio [30 anos] gosta de futebol, e a mais nova [24 anos] disse que não queria fazer desporto e não faz. Para que é que eu hei-de estar a massacrá-la se ela não quer, se não gosta?

– É um pai liberal?

Sempre fui, até na escolha do clube. Mas eles escolheram o Sporting [risos].

– E a zanga com Fernando Mamede [antigo atleta]?

Eu gosto de pessoas honestas.

– Quando toma uma decisão…

É para tomar e acabou. Sou muito radical. Há escolhas que temos de fazer.

– E a publicidade? Como é que apareceu?

Convidaram-me. Telefonaram-me e eu fui saber como era e chegámos a um acordo.

– E não faz mais porque não o convidam?

Exactamente. Estou aberto. Até porque em termos financeiros ajuda. Imenso. 

PRETO NO BRANCO

- Como é que ocupa o tempo?

- Faço pequenos arranjos em casa, faço de electricista, cozinheiro... Faço caldeiradas, feijoadas, um bom rancho, um bom bife, um bom peixe grelhado. E ando pelas escolas a fazer palestras para os miúdos.

- E os miúdos sabem quem é o Carlos Lopes?

- Muitos sabem, mas quem não sabe fica a saber, porque eu, antes de ir às escolas, peço aos professores que façam um trabalho sobre mim.

- Tem cuidados alimentares?

- Tenho, mas como de tudo, só que com moderação. Sou boa boca, mas nunca fui muito de doces. E faço caminhadas.

- E receios?

- Tenho, da vida. Não sabermos o que vai acontecer amanhã, esse é o pior problema.

PERFIL

Carlos Lopes nasceu em Viseu em 1947. Trabalhou como contínuo num banco e praticou atletismo, tendo sido, em 1984, o primeiro português a ganhar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. Está reformado da Banca.



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