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Lia Gama: "Viver comigo deve cansar muito" Nacionais: 20.5 - 10h Por: Sofia Rêgo

Genuína, Lia Gama fala da mãe que a "abandonou", do pai que lhe batia e do filho que ama. E confessa que tem uma imagem que não corresponde à realidade.

CM - Criada pelo pai e pela madrasta, é verdade que foi uma criança maltratada?

- É verdade. Batiam-me.

- Queriam moldá-la?

- Eles, provavelmente, não gostavam de mim. Eram pessoas com tendência para a violência. Fui criada sem amor e com violência e isso marcou-me.

- Isso reflecte-se na sua vida?

- Reflecte-se em toda a minha vida. Por muito que tentemos saldar esses problemas da infância, é complicado. Talvez por isso seja tão boa mãe e avó. A coisa mais fantástica do mundo é ter filhos e netos.

- Mas a Lia só teve um filho...

- Sim, fruto de um casamento. Depois separei-me, tinha o meu filho dois anos e não me apeteceu ter pais repartidos. O amor não é eterno. Sempre estive nas relações por paixão e, infelizmente, acabavam rapidamente.

- E como é ser actriz com um filho?

- O meu filho sempre foi extraordinário, solidário e andava comigo para todo o lado. Quando ele era pequeno, contava com um certo apoio familiar, mas depois a minha mãe morreu...

- Falou da sua mãe. Apesar de não ter vivido consigo, ela acompanhou-a?

- Tarde. Às vezes víamo-nos, mas tivemos maior aproximação depois do nascimento do meu filho. Nessa altura, ela apoiou-me, mas morreu quando o João tinha sete anos e eu 35.

- Alguma vez lhe perguntou porque é que não foi viver com ela?

- Isso foi um problema que nunca conseguimos resolver. Ela não podia ficar com dois filhos.

- Por motivos financeiros?

- Sim. O meu pai não lhe devia dar apoio. Eu e ela tínhamos sempre esse contencioso terrível... Uma mãe não abandona um filho e eu senti-me abandonada por ela. Mas ela deve ter tido as suas razões. Toda a vida senti a falta da mãe. Inconscientemente, culpabilizava-a por não ter ficado comigo. Mas a minha vida não seria o que é se não tivesse tido estas contingências.

- Foram essas contingências que fizeram de si uma pessoa tão carismática?

- Acho que sim. O facto de ser obrigada a lutar para atingir os meus objectivos, para me impor, levou-me a criar uma couraça, um ar que depois não corresponde à realidade, porque eu sou de manteiga. Emociono-me com qualquer coisa. Sou muito solidária e acho que tenho bom fundo. Apesar de tudo, sou bem formada. Detesto falsidades, mentiras, crueldade, miséria...

- Tem uma personalidade forte?

- Sim. E acho que viver comigo deve cansar muito. Sou Gémeos, ora quero isto, ora aquilo... E ninguém atura uma pessoa assim. Mas eu comigo convivo muitíssimo bem. Sou variável. 

"ESCREVO CARTAS PARA O MEU FILHO E NÃO MANDO"

- Não gosta de ser homenageada?

- Detesto. Ser homenageada porque tenho 50 anos de profissão e estou desempregada?! Deixem-me trabalhar, até porque com uma reforma de 378 euros...

- Já experimentou escrever os seus textos?

- Já, mas não prestam. Escrever é para quem sabe. Às vezes escrevo pensamentos, cartas para o meu filho que não mando.

- Algum dia pensa entregá-las?

- Talvez, se eu não as eliminar. Deito fora o passado todo. Não tenho cartas de amor, se alguém tiver cartas minhas que as deite fora.

- É uma pessoa feliz?

- Tem dias. Tenho pavor de depressões. Às vezes acho que já vivi tanto que não justifica continuar. Mas agora com os meus netos, apetece-me muito vê-los crescer.

"SOU UM POUCO AGITADA"

CM - Exorciza-se através das personagens?

- Quando as tenho. Já interpretei personagens terríveis, medonhas. Exorciza porque temos de ir à procura dentro de nós dessas coisas. Nós, actores, temos esse ar nocturno e diurno, maléfico e purificador. Quando temos personagens, há umas horas em que não pensamos em nós. Gosto muito do colectivo no trabalho, mas esse colectivismo no dia a dia não me seduz.

- É por isso que é vista como uma pessoa ‘à margem'?

- Sim, se calhar. Mas eu sou uma belíssima camarada de trabalho. Nunca estou lá para me armar em mestra. Estou lá solidariamente. Sei que o trabalho do actor é um trabalho que vive dos olhos nos olhos, da sinceridade e da franqueza. Sou é um pouco agitada. Há uns anos dizia tudo como os doidinhos e alguns líderes de companhia não gostavam, mas eu respondo pelo trabalho que faço. 

PERFIL

Lia Gama nasceu há 67 anos. Criada pelo pai, que se divorciou da mãe quando a actriz tinha quatro anos, Lia saiu de casa aos 13 e começou a trabalhar. Vendeu flores no Monumental, onde se estreou como actriz. Dirigida por Jorge Listopad, Luís Miguel Cintra e João Mota, faz teatro, cinema e televisão, mas ainda há quem a recorde pela Pepsi Rita em ‘Kilas'.



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