Manuel Cavaco: "Pessoas normais não têm graça"Nacionais:
17.6 - 10h
Por: Sofia Rêgo
Manuel Cavaco garante que não tem mau feitio. Rigoroso e exigente, acredita que só quem sofre sabe representar o sofrimento.
CM - É uma pessoa difícil?
Manuel Cavaco - Boa pergunta. Meteram-me o carimbo de que tenho mau feitio. Não tenho. Sou rigoroso. Sou profissionalão. Raramente falho porque me policio muito. E quando os outros falham irrito-me porque não estão a ter respeito pelos que não falham.
- Exige o que dá?
- O que dou. E dou muito. Sou profundamente generoso. E se calhar isso torna-me difícil porque não facilito.
- Preocupa-se em ser boa pessoa?
- Não. Eu sou boa pessoa. Por isso é que sou difícil. Não sou condescendente.
- O Manuel diz que gosta de chorar. Porque limpa a alma?
- Chorar é desanuviar, extravasar, aliviar de prováveis transtornos. Essa frase reaccionária de que um homem não chora... O homem chora e bom é aquele que tem coragem para dizer que chora. Choro muito a ver os telejornais.
- Chora...
- Choro com a vida. E é bom porque como sou uma pessoa de sangue na guelra, dá-me para extravasar e depois passa-me. Não sou de ressentimentos.
- E diz que gosta de si. Gosta porque conseguiu superar as adversidades: a falta da mãe, Guerra Colonial...
- Essas coisas batem forte mas não podemos ter ressentimentos. A Guerra Colonial foi uma coisa gravíssima. Salazar está morto e enterrado e se aparecesse ali a mãozinha na estrada eu ia lá para tapar com alcatrão. A perda da minha mãe foi uma fatalidade.
- E a representação?
- Foi uma espécie de vírus. Comecei a ser actor com quatro anos. Achei fascinante ajudar a contar uma história. E foi isso que alimentou o sonho de querer ser actor, para ser útil aos outros.
- Mas também útil a si?!
- Claro. Quando passo a ser o outro e deixo de ser o eu, isso torna--se agradável. Só quem sofre é que é capaz de apresentar o sofrimento. Eu sofri e penso muito nos que sofrem. Os vagabundos são os personagens de que mais gosto. Os que estão à margem.
- Os excluídos?
- Os não integrados. São maiores que a própria vida. Não estão integrados por qualquer coisa. Tudo o que não é normal desperta-me a atenção. As pessoas normais não têm graça. Não dão luta. O que é bom é ser marginal, não bandido, marginal da vida.
"TEMOS DE DESCARREGAR OS ÓDIOS EM ALGUÉM"
- Políticos nem vê-los?
- Alguns. Tenho saudades do Salgado Zenha, Álvaro Cunhal, Mário Soares, Jorge Sampaio... Tenho saudades das pessoas que sofreram o antes e pelo seu sofrimento quiseram dar-nos outro caminho.
- E o Benfica?
- Eu sofro a ver o Benfica.
- Não gosta de gatos?
- Não, porque havia um gato em casa da minha avó e, um dia, ao gatinhar comi uns cocós. E as pessoas, em vez de me acarinharem e dizerem para deitar fora, deram-me tautau que me doeu muito e ainda hoje me dói. Não suporto gatos. Temos de descarregar os nossos ódios em alguém.
- Lê muitos jornais?
- Já fui conhecido pelo ‘papa jornais'. ‘República', ‘Diário de Lisboa', ‘Diário Popular'... Sou um consumidor de jornais. Hoje sou um consumidor na internet.
"ESCREVO POSTAIZINHOS AOS AMIGOS"
- Prefere fazer drama, mas é-lhe fácil fazer humor?
-Não! É-me muito difícil. É preciso ter estado de alma e eu não tenho um sentido de humor normal. Rio-me com coisas que os outros não acham graça nenhuma. Gosto do nonsense, do ridículo. Eu estou calibrado para o drama, para o quotidiano. E as pessoas não andam naturalmente a rir. A casa das pessoas não é uma comédia.
- Já escreveu?
- Escrevo muito postaizinhos para os meus amigos. Recados, pensamentos. Isso faço.
- Gosta mais de observar do que de falar?
- Muito mais.
- E fala consigo?
- Exactamente. É aí que bate o ponto. E tenho duas, três pessoas com quem divago. É mais interessante. A minha mulher é uma boa companheira, grande companheira.
- Casados há 30 anos.
- Sim. Respeitamo-nos muito. Temos espaços diferenciados. Ela faz a vida dela, eu faço a minha e encontramo-nos ao fim da tarde. Somos realmente pessoas particulares, que é uma coisa de que gosto muito. O recato. A gente não tem de andar por aí em bicos de pés. Eu odeio isso.
PERFIL
Manuel Cavaco nasceu a 14 de Junho de 1944. Criado pelos avós maternos - a mãe morreu quando ainda gatinhava -, cedo percebeu que queria representar. Frequentou o Conservatório e fez-se actor nos palcos mas foi a televisão que o trouxe para a ribalta.